Sistema de seletivas atraiu 6 mil novos passageiros em 7 meses, mas cidade ganhou 48 mil automóveis...
Engarrafamento na Lagoa: a redução do uso de carro ainda depende da melhoria do transporte público
LEO MARTINS / O GLOBO
RIO - No Dia Mundial Sem Carro, comemorado neste sábado, uma boa notícia
para a cidade: segundo o secretário municipal de Transportes, Alexandre
Sansão, os BRSs (faixas preferenciais para coletivos) aumentaram em 5% o
número de passageiros de ônibus na Zona Sul. Ainda de acordo com ele,
são 6 mil usuários ou 12 mil embarques (viagens de ida e volta) a mais
por dia nos BRSs de Copacabana, Ipanema e Leblon.
— Boa parte é de pessoas que deixaram o carro para usar o ônibus. Hoje,
são feitas cerca de 262 mil viagens diariamente nesses corredores. O
atrativo tem sido a redução do tempo de viagem — afirma Sansão.
O tempo de percurso no BRS da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, que
completou um ano em fevereiro, caiu pela metade: de 23m10s, em média,
nos horários de rush, para 11m35s. No corredor Ataulfo de Paiva/Visconde
de Pirajá (Leblon/Ipanema), a diminuição foi menor: de 10%.
Funcionária do posto do Detran de Copacabana, Amanda Perez viu
consolidar, com o BRS, a decisão já adotada anteriormente de usar o
ônibus no trajeto entre sua casa, no Catete, e o trabalho:
— Só pego meu carro nos fins de semana.
O BRS da Avenida Rio Branco, no Centro, também encurtou a viagem em
quase 50%: de 11m20s para 5m40s. No corredor Presidente Antônio
Carlos/Primeiro de Março e na Avenida Presidente Vargas, também no
Centro, a queda foi de 34% e 22%, respectivamente. O impacto no número
de usuários nesses BRSs, mais recentes, ainda não foi contabilizado.
Para especialistas, as medidas adotadas e anunciadas não são suficientes
para desestimular o uso do carro, reduzir os engarrafamentos e melhorar
as condições ambientais. Ainda mais levando-se em conta o crescimento
da frota de carros. A capital ganhou 48.258 novos automóveis, de janeiro
a agosto deste ano, o equivalente a mais de 6 mil por mês. Mais do que
os 42.864 no mesmo período do ano passado.
— O sistema de transporte não é atraente o suficiente para as pessoas
deixarem de usar o carro — opina Paulo Cesar Ribeiro, professor de
engenharia de transportes da Coppe/UFRJ.
A chamada taxa de motorização (habitantes divididos por carros) também
foi na contramão do transporte público. No município, passou de 3,94
para 3,2 passageiros por carro, comparando-se agosto de 2002 com agosto
de 2012.
José de Oliveira Guerra, do Departamento de Transportes da Uerj, defende
a ampliação dos BRSs, lembrando que, quando o ônibus sai do corredor,
passa a trafegar na mesma velocidade dos demais veículos:
— É preciso ainda doutrinar os passageiros a mudar de meio de
transporte, quando necessário. O que importa é o tempo total da viagem.
Paulo Cesar Ribeiro acrescenta:
— Para haver ganhos ainda maiores nos BRSs, as linhas têm de ser reorganizadas, acabando-se com superposições.
Linha 4 tem de ser ampliada, diz professor
O professor da Coppe defende ainda a ampliação do metrô, a integração
das barcas com o restante do sistema de transportes, a melhoria dos
trens da SuperVia e a expansão do metrô. Não basta, diz ele, construir a
Linha 4 do metrô, entre a Barra e a Praça General Osório (Ipanema):
— É importante ligar a Linha 4 pelo outro lado (Jardim
Botânico-Botafogo) e concluir a Linha 2, construindo o trecho entre as
estações Estácio e Carioca. A linha 3 será feita entre São Gonçalo e
Niterói. E o trecho entre Niterói para o Rio? Falta o túnel. A Ponte
Rio-Niterói está saturada.
Pelo primeiro BRT (corredor segregado para ônibus articulados), o
Transoeste — que está operando entre o Terminal Alvorada, na Barra, e
Santa Cruz — viajam entre 62 mil e 66 mil passageiros por dia. Segundo
Alexandre Castro, gerente do Transoeste pelo Rio Ônibus, o trecho
inaugurado retirou passageiros de vans e frescões:
— Percebemos ainda que algumas pessoas que circulavam de carro já começam a usar o parador entre Barra e Recreio.
Paulo Cesar Ribeiro, porém, insiste num reestudo dos BRTs, por causa dos acidentes em série:
— Deveriam ser implantadas mais travessias de pedestres com sinais, sincronizadas de modo que os ônibus não parem.
Coordenador regional da Associação Nacional de Transporte Público, William Aquino sai em defesa dos corredores de ônibus:
— Os congestionamento só não aumentaram mais por causa dos BRS e do BRT
Transoeste — diz ele, destacando que o aumento de renda da população, o
vale-transporte e os bilhetes únicos intermunicipal e municipal têm
contribuído para as pessoas viajarem mais de carro ou de transporte
público.
Para José Eugenio Leal, professor da PUC, o fundamental é mudar a
estratégia do governo, que incentiva o carro ao reduzir impostos (IPI e
IPVA) de veículos novos e que usam gás natural.
— Para se priorizar o transporte público, nossa economia não poderia
continuar se baseando tanto no carro e no petróleo — adverte Leal.
Já o economista e ecologista Sergio Besserman chama a atenção para
problemas causados pelos carros: a poluição do ar; o aquecimento global,
quando utilizam gasolina e diesel, produtores de gases do efeito
estufa; e a disputa pelo espaço público, uma vez que quase sempre são
usados por uma única pessoa.
— O futuro é o da mobilidade inteligente. Precisamos de transporte
público eficiente e de usar mais a informática para reduzir a mobilidade
burra. O carro continuará a ser uma disponibilidade individual, mas de
uso inteligente.
Calor e falta de limpeza ainda são motivo de queixas nos coletivos
O economista Eduardo Sette Camara, de 28 anos, deixa o carro em casa. Ou
melhor, na casa dos pais, em Copacabana, porque não tem garagem onde
mora. Ele só usa o automóvel nos fins de semana. O deslocamento entre a
sua casa, no Leme, o apartamento dos pais, em Copacabana, e o trabalho,
no Flamengo, é feito de ônibus, grande parte pelos corredores
preferenciais (BRSs) da Avenida Nossa Senhora de Copacabana e da Barata
Ribeiro.
— Não tenho onde estacionar — justifica o economista.
Eduardo diz que o BRS reduziu o tempo de viagem, mas são necessários ajustes:
— A organização precisa melhorar. Os motoristas, talvez porque sejam mal
treinados, param longe, em fila dupla, passam direto nos pontos. Além
disso, os ônibus não têm ar-condicionado, são sujos e malcuidados.
Também agruparam os ônibus de forma que não atendem os usuários.
O secretário municipal de Transportes, Alexandre Sansão, lembra que 20%
dos ônibus têm de ser trocados anualmente e que toda a frota estará
renovada até 2016. Quanto ao ar-condicionado...
— Estamos estudando essa questão com cuidado, por causa do impacto na tarifa.
Em relação ao metrô, a promessa do estado é que 19 novos trens estejam
funcionando em março de 2013. O secretário estadual de Transportes,
Julio Lopes, garante ainda que, também no ano que vem, será inaugurada a
estação Uruguai, na Tijuca.
Na SuperVia, dos 160 trens em operação, 68 são novos ou reformados e têm
ar-condicionado. Segundo Lopes, esse número subirá para 84 até o fim do
ano:
— Em 2014, todos os 191 trens terão ar-condicionado. Em 2016, serão 231 composições com ar.
Quanto às barcas, o TCE autorizou licitação para a compra de nove
embarcações, que devem estar operando em dois anos. O aluguel de duas
barcas, de 600 e mil lugares, deve acontecer até dezembro.
Fonte: http://oglobo.globo.com/rio
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